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COMÉRCIO EXTERIOR: QUANDO O EVENTO TERMINA, PARA ONDE VAI A INFORMAÇÃO?

Artigo de opinião | Comércio Exterior

Eventos pagos, autoridades públicas, networking e exposição nas redes sociais. Uma reflexão sobre o verdadeiro alcance do conhecimento compartilhado no Comércio Exterior brasileiro.

Por Maurício Carvalho | Despachante Aduaneiro

O Comércio Exterior brasileiro atravessa um período de profundas transformações. A implementação do Portal Único, a DUIMP, a Reforma Tributária e as constantes alterações nos procedimentos aduaneiros exigem dos profissionais uma atualização praticamente diária.

Nesse cenário, congressos, fóruns, seminários e encontros especializados ganharam ainda mais relevância.

São eventos que aproximam profissionais, promovem discussões técnicas, fortalecem relacionamentos e oferecem oportunidades importantes de atualização e desenvolvimento profissional.

Muitos desses encontros são pagos, o que é perfeitamente compreensível. Existe uma estrutura por trás de cada evento, com custos de organização, infraestrutura, tecnologia, divulgação e profissionais envolvidos.

O ponto que merece reflexão não é o preço da inscrição. É o destino da informação apresentada nesses encontros.

Quando a informação é pública, qual deveria ser seu alcance?

É cada vez mais frequente a participação de representantes de órgãos públicos em eventos promovidos por entidades e empresas privadas do setor.

São autoridades e técnicos que apresentam projetos, cronogramas, mudanças regulatórias, orientações operacionais e esclarecimentos sobre procedimentos que afetam milhares de profissionais.

E aqui surge uma pergunta importante:

Quando um representante de órgão público compartilha informações de interesse geral em um evento de acesso pago, como garantir que essas mesmas informações cheguem também àqueles que não puderam participar?

Não estou sugerindo que exista qualquer irregularidade nesses encontros ou que seus participantes tenham acesso indevido a informações privilegiadas.

A reflexão é sobre transparência, alcance e democratização do conhecimento.

Afinal, uma orientação relevante sobre o Portal Único, a DUIMP ou qualquer procedimento aduaneiro não interessa apenas às pessoas presentes em determinado auditório.

Ela pode impactar diretamente o trabalho de despachantes aduaneiros, importadores, exportadores, agentes de carga, transportadores e tantos outros profissionais espalhados pelo Brasil.

Entre fotografias, networking e conhecimento

Quem acompanha as redes sociais certamente percebe a quantidade de publicações realizadas durante esses encontros.

Fotografias com autoridades, registros de palestras, auditórios, reencontros profissionais e mensagens celebrando a participação nos eventos.

Tudo isso é legítimo e faz parte do relacionamento profissional. A visibilidade também contribui para valorizar iniciativas e aproximar pessoas.

Mas existe uma pergunta que considero ainda mais importante: depois que as fotografias são publicadas e os auditórios ficam vazios, o que acontece com o conhecimento apresentado?

As informações relevantes continuam circulando?

Os esclarecimentos técnicos são compartilhados?

Os profissionais que não estiveram presentes conseguem conhecer o conteúdo que realmente pode fazer diferença em suas operações?

Talvez essas perguntas sejam mais importantes do que a quantidade de curtidas ou visualizações conquistadas por uma publicação.

O conhecimento também circula fora dos auditórios

Existe uma realidade que não podemos ignorar.

Atualmente, grupos especializados de WhatsApp e outras comunidades digitais desempenham um papel importante na disseminação de informações sobre o Comércio Exterior.

Nesses ambientes, profissionais de diferentes regiões compartilham novidades, discutem procedimentos, identificam instabilidades sistêmicas e trocam experiências sobre situações reais.

Muitas vezes, uma dúvida apresentada por um profissional é esclarecida por outro que enfrenta exatamente a mesma situação em uma unidade aduaneira diferente.

Essa colaboração tem um valor enorme.

E aqui faço outra provocação:

Quantas informações apresentadas em eventos pagos já circulam gratuitamente nas comunidades especializadas? E quantas novidades desses eventos deixam de alcançar essas mesmas comunidades?

Não acredito que eventos presenciais e grupos digitais sejam concorrentes.

Ao contrário, considero que deveriam ser complementares.

Os eventos oferecem uma experiência de relacionamento, aprofundamento e interação presencial. As comunidades digitais permitem ampliar o alcance do conhecimento e manter as discussões vivas diariamente.

Uma coisa não diminui a importância da outra.

O papel dos órgãos públicos nessa discussão

A participação de órgãos públicos em eventos privados pode representar uma excelente oportunidade de aproximação entre a administração pública e os operadores de Comércio Exterior.

Essa aproximação é positiva e necessária.

Entretanto, quando são apresentadas informações oficiais de interesse coletivo, considero fundamental que elas também estejam disponíveis, de forma clara e tempestiva, nos canais públicos de comunicação.

Não significa que todas as discussões, debates ou experiências oferecidas por um evento devam ser reproduzidas gratuitamente.

Significa apenas que o acesso às informações oficiais de interesse geral não deveria depender da capacidade financeira de participar de um encontro.

Quanto mais acessível e organizada for a informação, menores serão as dúvidas, os ruídos de comunicação e as interpretações equivocadas que acabam prejudicando as operações.

O verdadeiro legado de um evento

Participo do Comércio Exterior há décadas e reconheço a importância dos encontros profissionais, das entidades representativas, dos organizadores e das iniciativas que promovem conhecimento.

Acredito, inclusive, que precisamos de mais espaços qualificados para discussão dos desafios do nosso setor.

Mas também acredito que o sucesso de um evento não deveria ser medido somente pela quantidade de inscritos, pelo prestígio dos palestrantes ou pela repercussão nas redes sociais.

Um dos maiores legados de qualquer encontro deveria ser a capacidade de fazer o conhecimento ultrapassar as paredes do auditório.

Quando uma informação relevante é compartilhada, ela não perde valor. Pelo contrário, ganha alcance, estimula novas discussões e contribui para o desenvolvimento de todo o setor.

O Comércio Exterior não acontece apenas nos grandes eventos.

Ele acontece diariamente nos portos, aeroportos, recintos alfandegados, transportadoras, empresas e escritórios de profissionais que precisam tomar decisões e resolver problemas concretos.

É também a essas pessoas que o conhecimento precisa chegar.

Uma reflexão para o setor

Não se trata de criticar eventos pagos, questionar quem participa ou desvalorizar o networking.

Trata-se de reconhecer que a informação é um dos principais instrumentos de desenvolvimento do Comércio Exterior brasileiro.

E que todos podemos contribuir para ampliar seu alcance.

Organizadores, palestrantes, representantes de órgãos públicos, participantes e comunidades profissionais têm um papel importante nessa construção.

Afinal, quando um evento termina, o que deveria permanecer não são apenas as fotografias, mas também o conhecimento que foi compartilhado.

Fica a reflexão:

Estamos aproveitando esses encontros para fortalecer todo o Comércio Exterior brasileiro ou ainda podemos fazer muito mais para ampliar o acesso à informação?

E você, qual é a sua percepção?

As informações relevantes apresentadas em eventos chegam efetivamente aos profissionais que não estiveram presentes?


Maurício Carvalho
Despachante Aduaneiro | Profissional de Comércio Exterior desde 1985

Este artigo expressa a opinião pessoal do autor e busca promover uma reflexão construtiva sobre a circulação do conhecimento e o acesso às informações de interesse público no Comércio Exterior brasileiro.

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